quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ter vergonha da Dominação Masculina?


É sobre des-politização do sexo. E politização da discussão dos direitos.
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Vou tentar dar um exemplo perigoso. Quero que se lembrem que eu realmente faço a maior defesa das minorias, que estou do lado dos oprimidos, do ponto de vista da escolha política.
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Imagine uma mulher liberta, cabeça aberta e feliz, defensora dos direitos das minorias, talvez até uma militante.
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Só que daí ela (que não tem culpa de sua sexualidade; não escolheu); morre de tesão pela idéia do "negro rude". Ela gozando, como naquele filme, dizendo: Me fode, negro; me fode negro.
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Ela deveria se sentir mal? Ela não escolheu, mas a mera menção da idéia a desperta sexualmente e ela fica louca. O que fazer com uma contradição dessas?
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Não é claro que a tara dela se baseia em racismo, na idéia escrota de que negros são máquinas de sexo? De que são rudes, braçais, pouco educados?
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Sabemos como caras libertários que isso tudo é produto de uma sacanagem histórica contra os negros, que são oprimidos e sacaneados por ricos brancos por toda a história (e ainda hoje, chacinados em favelas, maioria carcerária, renda menor, o racismo tá aí). Sabemos que a loirinha sente tesão a partir da percepção do racismo a que foi exposta. É assim que essa mulher hipotética lida com o trauma do racismo.
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Como condenar a loirinha se ela nos afirma que tesão não se escolhe? Devemos imputar essa culpa racista a ela?
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Em sua defesa ela diria que no campo das relações e dos direitos ela não discrimina negros, que acredita em acabar com o racismo e o reconhece, que é parceira do movimento negro. Só que não tem jeito; ela vê um negro e fica molhada com a idéia de que ele vai pegar ela forte. A gente tem que tomar muito, muito cuidado pra não criminalizar as sexualidades. Já pensou o quanto essa mulher hipotética tende a sentir-se mal com seu sexo, culpada, deprimida?
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Talvez o que realmente importe pros negros em geral seja a discussão dos direitos muito mais do que como a loirinha faz na cama.
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O tesão dela adquiriu um componente do trauma que ela teve com o racismo, no choque com seu meio social. Ela não decidiu ser assim. Ficou impresso em sua sexualidade, só. Do mesmo jeito que ninguém escolhe se vai gostar de homem ou de mulher. Acontece.
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E porque eu estou dizendo isso tudo?
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Porque com a Dominação Masculina acontece a mesma coisa. Realizamos uma vivência quase maldita, socialmente. Contudo demandada pelos dois lados. E feliz.
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Então, assim como a loirinha não precisa ser racista pra viver a sua tara, a gente não precisa ser machista pra cultivar a nossa. Não precisamos ser machistas nos direitos, na sociedade; não precisamos chegar bêbados em casa e bater em nossas mulheres; não precisamos concordar que elas sejam vítimas de crimes sexuais.
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Não precisamos ser opressores, mesmo que esteja impresso em nós uma identidade sexual opressora.
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Sexo não é escolha política. Ser machista é.
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Eu nunca poderia escrever sem algum sarcasmo final, mas meus amigos Dons vão entender que sou um espírito brincalhão.
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As loirinhas com fixação em negros são os Dons, nesse texto. A tara maldita é patriarcal ao invés de racial. Uma boa analogia.
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E os Dons quando são bons são formais, ficam na deles. Mas há contradições e dores só nossas nesse negócio de ser Dom. A submissa tem seus desafios e suas fraquezas; nós não temos apenas os desafios da condução. Nós também temos fraquezas.
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É como se você tivesse que olhar pra dentro de você todo dia e se perguntar se sua sexualidade não é um absurdo e você tornou-se as coisas que pretende destruir.
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Por isso é que a gente tem que se aceitar; des-politizar o sexo. Tratar a liberdade pra além da anatomia, reconhecer a legitimidade do outro, seus traumas e construções de pessoalidade. Aceitar que no meio do horror social forja-se uma experiência pessoal de sexualidade e que é legítimo buscar ser feliz desde que você não agrida ninguém.
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Nem sempre essa tal liberdade é um valor burguês. Ela também é um pilar anarco fundamental. Qual nosso direito de patrulhar a escolha pessoal do outro, mesmo admitindo que ela pode ser "violência livremente elegida por nós"?

Parar de condenar as características que não são escolhidas: a raça ou a identidade sexual. E estar em níveis sm de necessidade de transferência de poder para obtenção de prazer constitui uma identidade sexual específica, segundo acredito. Punir alguém por sua identidade sexual é massacre emocional feito em nome de um falso bem. Despolitizar o sexo é crucial pra possibilitar realizações afetivas sinceras, onde cada um traga sua sexualidade honestamente para a relação, sem recalques.
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E politizar a escolha política. Ser implacável com o machismo. Lutar pela igualdade de direitos, lutar ao lado do que é certo.
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Mas não precisamos deixar de ser Leões. E Leões podem ser valiosos na luta pelos direitos das mulheres.

2 comentários:

  1. "Somos animais tristes"

    tremendamente nosense os condenados condenando.

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  2. Adorei o texto, muito bacana.

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